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terça-feira, 16 de junho de 2026

DENTRO

Ó tédio d’alma, angústia mortal que me habita!
Ó dor sem causa que me consome, inquieta!
Duro combate entre o meu “id” poeta
E a outra parte, que jaz em sombra infinita.
 
Densa cratera que me confunde e acolhe —
E em que, imersa, nem posso dar por mim mesma!
Kryptonita cravada em minha cabeça
Que influencia um quase desejo de morte.
 
Adoecer dessa forma tão absurda,
É um sofrer que dói e não acha existir
E, ainda assim, contamina tudo que há.
 
Essa tristeza profunda e cheia de culpa
É o que sinto, sempre que olho pra mim:
Cheia de amor e não conseguindo amar!

PRA TE VER

A primeira vez que vi teus olhos escuros,
Não fazia ideia de que fosse um mergulho sem volta.
E a cada vez que me vejo adentrar tua luminosa pupila,
Meu coração espedaça e conserta
E torna a espatifar-se, de novo, num viver e morrer sem medida.
E toda vez que conquisto um teu sorriso de canto de boca,
É como se o próprio céu se abrisse a uma nova manhã florescente!
 
O suave som da tua voz
Vai me penetrando os poros, antes mesmo de chegar aos ouvidos.
E eu vivo e revivo e remoo infinito
Cada fração de segundo em que desfruto da
Tua despretensiosa atenção.
 
Como é possível que a tua imagem
Tenha-se gravado tão fundo na minh’alma
Que, mesmo nos frágeis momentos em que não te fantasio,
Tu te impões já tão presente,
Como se já me fizesse parte a tua pessoa?
 
E eu, de ti, o que sei? O que vi?
O que amei com tanta devoção
Que já não me posso apartar?
 
E assim, nada mais quero...
Nem palavras, nem beijos,
Nem afetos proibidos...
Eu só queria te ver de novo,
Num lugar que estivesse fora dos meus pensamentos.
 
E o que vi? Não sei dizer.
Com quê me atrais? Não discerni.
E nem me ocupo mais de entendimento,
Porque em algum lugar do tempo te gravastes em minha memória.
E isso me basta para querer-te ver,
Nem que seja num sonho fortuito dessa vida escura
Que não contém o sol da tua presença.
 
Tu, que não me pertences nem queres;
Tu, que sequer me lembras;
Tu que nem me cogitas...
 
E eu só queria te ver.
Só uma vez,
Antes que a fantasia me roube
O resto de juízo que tenho guardado
No potinho frágil da minha infeliz e solitária existência.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

AO LEITO

Faço o sinal da Santa Cruz e vou deitar...
Então, recordo dos que não têm nem coberta
E que, no chão frio duma vida tão incerta,
Morrem de medo de amanhã não acordar.
 
À noite, o mal faz seu papel de sentinela;
E se, às vezes, o cansaço predomina,
A dor pungente duma barriga vazia
Transforma o sono em estado de alerta!
 
E, nestes termos, é difícil não ceder
E entorpecer a mente, a dor, a fome, o frio,
A solidão exposta — e quase ninguém vendo.
 
Angustiada, sem saber o que fazer,
Pelo pesar de chorar tanto desabrigo,
Por fim, também eu acabei adormecendo.

O QUADRO

Ao contemplar a bela tela colorida, Estes salões se me tornaram um deserto; Enquanto eu, naquele novo espaço aberto, Já adentrava o imaginár...