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domingo, 12 de julho de 2026

O QUADRO

Ao contemplar a bela tela colorida,
Estes salões se me tornaram um deserto;
Enquanto eu, naquele novo espaço aberto,
Já adentrava o imaginário feito em tinta.
 
Eis, ladeado pelos prados e florestas,
O vão inerte que presumi conhecido;
Em tons suaves, pareceu falar comigo
E eu quis ficar e quis ouvir tão já sem pressa!
 
Nessas alturas, fui sair noutro lugar...
E caminhei, buscando achar algum sentido
Naquela via, ali, pintada em meu destino –
Que me fizera ir tão longe a vagar!
 
E caminhando pela estrada tão serena,
Eu procurei saber o que estava além;
Que “quem procura sempre acha” e eu encontrei
Aquele por quem todo esforço vale a pena!
 
Segui seus passos como quem procura a vida.
Mas, na fraqueza, eu me vi cair ao chão.
Foi nessa hora que Ele me estendeu a mão
E pus o dedo dentro da sua ferida.
 
Alguém tocou bem no meu ombro e disse: “É hora!
Todos já foram, essas portas vão fechar”.
Me pus em marcha, mas o que encontrei por lá,
Foi o Caminho que escreveu em minha história.

terça-feira, 16 de junho de 2026

DENTRO

Ó tédio d’alma, angústia mortal que me habita!
Ó dor sem causa que me consome, inquieta!
Duro combate entre o meu “id” poeta
E a outra parte, que jaz em sombra infinita.
 
Densa cratera que me confunde e acolhe —
E em que, imersa, nem posso dar por mim mesma!
Kryptonita cravada em minha cabeça
Que influencia um quase desejo de morte.
 
Adoecer dessa forma tão absurda,
É um sofrer que dói e não acha existir
E, ainda assim, contamina tudo que há.
 
Essa tristeza profunda e cheia de culpa
É o que sinto, sempre que olho pra mim:
Cheia de amor e não conseguindo amar!

PRA TE VER

A primeira vez que vi teus olhos escuros,
Não fazia ideia de que fosse um mergulho sem volta.
E a cada vez que me vejo adentrar tua luminosa pupila,
Meu coração espedaça e conserta
E torna a espatifar-se, de novo, num viver e morrer sem medida.
E toda vez que conquisto um teu sorriso de canto de boca,
É como se o próprio céu se abrisse a uma nova manhã florescente!
 
O suave som da tua voz
Vai me penetrando os poros, antes mesmo de chegar aos ouvidos.
E eu vivo e revivo e remoo infinito
Cada fração de segundo em que desfruto da
Tua despretensiosa atenção.
 
Como é possível que a tua imagem
Tenha-se gravado tão fundo na minh’alma
Que, mesmo nos frágeis momentos em que não te fantasio,
Tu te impões já tão presente,
Como se já me fizesse parte a tua pessoa?
 
E eu, de ti, o que sei? O que vi?
O que amei com tanta devoção
Que já não me posso apartar?
 
E assim, nada mais quero...
Nem palavras, nem beijos,
Nem afetos proibidos...
Eu só queria te ver de novo,
Num lugar que estivesse fora dos meus pensamentos.
 
E o que vi? Não sei dizer.
Com quê me atrais? Não discerni.
E nem me ocupo mais de entendimento,
Porque em algum lugar do tempo te gravastes em minha memória.
E isso me basta para querer-te ver,
Nem que seja num sonho fortuito dessa vida escura
Que não contém o sol da tua presença.
 
Tu, que não me pertences nem queres;
Tu, que sequer me lembras;
Tu que nem me cogitas...
 
E eu só queria te ver.
Só uma vez,
Antes que a fantasia me roube
O resto de juízo que tenho guardado
No potinho frágil da minha infeliz e solitária existência.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

AO LEITO

Faço o sinal da Santa Cruz e vou deitar...
Então, recordo dos que não têm nem coberta
E que, no chão frio duma vida tão incerta,
Morrem de medo de amanhã não acordar.
 
À noite, o mal faz seu papel de sentinela;
E se, às vezes, o cansaço predomina,
A dor pungente duma barriga vazia
Transforma o sono em estado de alerta!
 
E, nestes termos, é difícil não ceder
E entorpecer a mente, a dor, a fome, o frio,
A solidão exposta — e quase ninguém vendo.
 
Angustiada, sem saber o que fazer,
Pelo pesar de chorar tanto desabrigo,
Por fim, também eu acabei adormecendo.

terça-feira, 19 de maio de 2026

EU, POETA

Quisera ter em mim, algum instante,
A força e a coragem pra mudar
O mundo transtornado que me cerca.
Porém, as minhas coisas não tão retas,
Nem sempre tenho a manha de enxergar –
Eu penso: já seria até bastante!
 
E hoje, avançando dos quarenta,
Percebo nem querendo tanto assim...
E acabo sufocando em má vontade
A parte que me consta e que me cabe;
Eu vejo-me querer, mas desistir,
Pensando o que me vale mais a pena.
 
Alguém falou que isso é ser adulto:
Um voluntariamente acovardar-se.
Até tentando bem, não acredito
E, não querendo concordar com isso,
Os louros dessa tal maturidade
São coisas que – eu mesma – não desfruto.
 
Assim, eu me atrevi a ser poeta,
Buscando encorajar quem tem mais brio
A transformar o mundo mais bonito.
Assim é que eu vivi e ainda vivo:
Argumentando sonho e desvario,
Que poesia é tudo o que me resta!

 

CENTELHAS

Um riso de criança encheu a casa;
Eu, da janela, ouvindo o seu ruído,
Também senti vontade de achar graça,
Sem nem querer saber qual o motivo.
 
Tem coisas que, chegando ao coração,
Inundam nossos olhos de estrelinhas
E, quando a gente pensa que já não,
Recordam que há música ainda!
 
O choro amargo da sobrevivência
Embaça os olhos d’alma, quase cegos,
E a gente perde o dom de contemplar.
 
Mas, para além de toda aparência,
A vida não é só sobre dar certo...
Às vezes, é preciso esperançar!

sábado, 2 de maio de 2026

TORMENTA

O que é deste amor que me consome até o último suspiro;
Que, quanto mais eu o sinto, tanto mais morro, cada vez um pouco?
Se me tem consumido e afogado em profundo e tamanho desgosto, 
Por que raios, no peito já tão castigado, jamais abdico?
 
E talvez não se gaste, por não dividi-lo, por mais que me queime;
Cada grito que eu calo se faz testemunha do meu sofrimento.
E se, desde a manhã, ele raia nas luzes do meu pensamento,
Como posso fugir do que já me faz parte tão intimamente?!
 
De joelhos dobrados, imploro a Deus: “me conceda esta graça”!
E, se for da vontade do Pai de bondade, em sua misericórdia,
Haverei de ter forças pra não repetir o pecado mortal.
 
O que mais me angustia é não reconhecer esta voz que me fala,
Que me gasta e não acha entender e não passa da minha memória...
Como é que te amar pode ser tão bonito e fazer tanto mal? 




(Do livro Pobres Rimas - V. Medeiros)


Obs: 1° lugar na categoria 2 - "adultos em geral" -   3° Concurso Nacional de Poesia da Academia Metropolitana de Letras e Artes de Feira de Santana.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

POESIA DE AMOR N° 2

Deito no chão, para olhar as estrelas
Faço um pedido ao milagre cadente:
Eu só queria um amor para sempre
Que não brigasse com minha cabeça.
 
Eu, quando dou para amar, adoeço
Sofro, enfraqueço e choro e suspiro,
Ardo, gracejo, contemplo, deliro
E não consigo encontrar mais sossego!
 
Essa tormenta brutal que escraviza,
Eu agradeço por ter no meu peito,
Porque, se for pra viver de outro jeito...
Não, eu confesso que não saberia.
 
E, finalmente, por tanto querer,
Eu amei mais o amor que o amado.
E pude ver, no vazio do meu quarto,
Que todos sabem amar... Menos eu!




(Do livro Pobres Rimas - V. Medeiros)

O QUADRO

Ao contemplar a bela tela colorida, Estes salões se me tornaram um deserto; Enquanto eu, naquele novo espaço aberto, Já adentrava o imaginár...